O Todo Poderoso Gráfico do Fluxo Cumulativo de Valor:

Figuras brilhantes da administração moderna, como Peter Drucker, já diziam que é inútil tentar gerenciar um sistema de trabalho sem um sistema consistente de medições e métricas. Se você já trabalha com métodos ágeis isso é ainda mais importante pois métodos ágeis são baseados nos princípios de transparência radical, feedbacks e replanejamentos contínuos. Sem números apropriados, não conseguimos avançar na maturidade do uso de métodos ágeis.

Felizmente, existe um gráfico simples e superpoderoso que pode ser facilmente usado por times ágeis. Esse gráfico lhe dará muitas informações valiosas, tais como:

  1. A representação das entregas realizadas no fluxo de valor do seu sistema de trabalho.
  2. O tempo médio que o seu sistema de trabalho demora para processar um novo pedido ou requisito. (lead time ou tempo de atravessamento).
  3. O tempo médio que cada papel ou área do seu sistema de trabalho demanda para processar novos itens. (cycle time ou tempo de ciclo).
  4. A quantidade de itens que estão sendo processados em um determinado momento do tempo (WIP ou trabalho em progresso).
  5. Observar mudanças de escopo ao longo do tempo
  6. Observar a vazão do seu sistema de trabalho, de um papel ou de uma área. (throughput)
  7. Observar gargalos
  8. Estimar quando o seu projeto irá terminar

Ferramentas normalmente usadas por times ágeis, como por exemplo o Microsoft VSTS/TFS, JIRA Agile, Redmine ou o Trello com plugins, já constroem automaticamente esse gráfico e liberam o nosso tempo para a análise intelectual das informações. Ao mesmo tempo, você pode criá-los em ferramentas de planilhas simples como o Google Sheets ou o Excel. Irei fazer isso ao longo desse post para que você possa entender como construir e interpretar esse gráfico.

Construindo o Gráfico do Fluxo Cumulativo de Valor

O nome do nosso super-gráfico é fluxo cumulativo de valor e é também chamado de CFD ou Burn-Up.

Os passos essenciais para a construção desse gráfico são:

  1. Decidir que tipo de informação será medida.
  2. Decidir a frequência da análise.
  3. Decidir que etapas do fluxo de valor serão medidas.

Vamos trabalhar com um primeiro exemplo onde queremos analisar os incidentes que são atendidos por uma área de suporte de um produto. A nossa análise nesse exemplo será semanal e iremos analisar as seguintes etapas: novos incidentes, incidentes em tratamento e incidentes fechados.

Primeiro monte uma tabela com as informações dos incidentes em cada estado ao longo de cada semana.

Depois você deve somar os dados em cada semana, i.e, em cada semana iremos ver todos os incidentes naquele estado. Na semana 2, portanto, teremos 17 incidentes no estado aberto, 10 em execução e 7 fechados. Isso irá gerar uma planilha simples conforme mostrado abaixo.

Agora iremos representar isso visualmente em um gráfico de área 2D (Area Chart Non Stackable no Google Sheets ou Área 2D no Excel). O resultado abaixo será mostrado.

Extraindo os Super Poderes do Gráfico Cumulativo de Valor

Vamos agora interpretar as informações trazidas por esse gráfico.

A representação das entregas realizadas no fluxo de valor do seu sistema de trabalho.

O primeiro fato a ser extraído do gráfico é como o seu sistema de trabalho está se comportando conforme o seu fluxo de valor, que é a coleção de etapas ou estados através dos quais podemos observar o sistema de trabalho.

Podemos observar que nas 4 primeiras semanas tivemos 52 incidentes abertos, 33 itens em execução e 19 fechados. Já na semana 6 observamos 78 itens abertos, 51 em execução e 40 itens fechados. E isso indica que o sistema na semana 6 está menos saudável que na semana 4 pois existe um acúmulo maior de itens nos estados aberto ou em execução. Colocado de outra forma, podemos ver que na semana 4 existe um acúmulo de 33 itens (52 itens abertos — 19 itens fechados). Já na semana 6 temos 38 itens acumulados (78 itens abertos — 40 itens fechados).

Se observamos a figura, podemos observar como a barriga da área azul. Visualmente podemos ver que a barriga na semana 6 se tornou maior que a barriga da semana 4. E isso indica que a saúde do sistema piorou.

Sistemas de trabalho saudáveis devem manter conseguir processar itens em taxas similares às suas chegadas. Isso evita filas, troca de contexto e defeitos no processamento de pedidos, requisitos, demandas ou encomendas.

O tempo médio de processamento de pedidos (lead time ou tempo de atravessamento)

Um dos motivos que leva a que métodos ágeis tenham esse nome é que eles buscam garantir que um pedido aberto não fique muito tempo dentro do seu sistema de trabalho, i.e., um novo pedido ou requisito deveria ser rapidamente construído, verificado e liberado para os seus clientes. Chamamos essa métrica global de tempo de atravessamento ou lead time.

Vamos examinar como o lead time pode ser examinado pelo gráfico do fluxo cumulativo de valor. Ele pode ser lido através da diferença horizontal entre os itens fechados e os itens abertos.

Por exemplo, na semana 5 estamos vendo que os itens fechados correspondem aos itens que foram abertos na semana 2. O lead time da semana 5 está perto de 4 semanas, que indica que um incidente fica perto de um mês no seu sistema antes de ser finalizado.

Se observarmos a semana 10, vemos um o sistema ficou ainda menos saudável. Os itens fechados na semana 10 foram abertos entre a semana 5 e a semana 6, que indica que o lead time médio agora está em cerca de 4 semanas e meia.

Nos métodos ágeis, buscamos minimizar o lead time. Quanto menor o lead time, mais rápida é a capacidade do seu time de processar pedidos. E portanto a medição do lead time é em minha opinião a mais importante métrica a ser observada em sistemas baseados em métodos Scrum, Kanban e afins.

O tempo médio de processamento de pedidos por papel ou área (cycle time)

Se o lead time mostra o tempo total de atravessamento no nosso sistema de trabalho, podemos usar o mesmo racional para examinar como uma etapa do trabalho (papel ou área) está se comportando. Considere o gráfico abaixo como exemplo.

Aqui estamos observar o tempo de ciclo da etapa de execução, i.e, o tempo médio que um incidente demorou para ser efetivamente resolvido uma vez que ele começou a ser tratado pela equipe. Podemos ver que o tempo de ciclo na semana 5 era de um pouco mais de 1 semana. Já na semana 10 o tempo de ciclo já era de 3 semanas, indicando que o time de execução claramente não está conseguindo liberar incidentes na mesma taxa que eles estão chegando.

Veja ainda que o tempo de ciclo pode ser analisado em outras etapas. Por exemplo, no gráfico abaixo podemos observar o tempo de ciclo da etapa de Novos Incidentes.

Aqui podemos ver que na semana 3 um incidente demorava, em média, uma semana e meia até começar a ser tratado pelo time. Já na semana 10 um item ficava aberto quase 4 semanas até começar a ser tratado pelo time.

Longos tempos de ciclo para uma etapa indicam que a área associada aquele trabalho está com dificuldades. E isso indica que a gestão deve buscar formas de apoiar aquele time para reduzir nos gargalos. Ao invés de permitir a chegada de novos itens de foram desenfreada (ilusão de controle) ou fazer ameaças (management 1.0) a gestão ágil deve promover enxames de ajudantes de outras áreas e funções para desafogar o time com dificuldades e com isso reestabilizar o sistema.

A quantidade de itens que estão sendo processados em um determinado momento do tempo (WIP ou trabalho em progresso).

Esse gráfico é tão legal que podemos observar também como os itens estão se acumulando no sistema de trabalho. A isso chamamos de trabalho em progresso ou WIP (Work In Progress). Valores altos do WIP indicam que o seu sistema não está saudável pois indica que as pessoas estão tentando fazendo muita coisa ao longo de uma semana. Isso leva a interrupções no trabalho, trocas de contexto e esgotamento mental pelo seu time.

No gráfico abaixo, podemos observar que o WIP da semana 10 é claramente pior que o WIP da semana 02, mostrando como o sistema está se degradando ao longo do tempo.

De fato, se você observar os dados da planilha fornecida no exemplo você irá observar que o WIP da semana 02 era de 19 itens (26–7). Já o WIP na semana era de 37 itens (119–72).

Observar mudanças de escopo ao longo do tempo

Vamos considerar o contexto de um time que precise construir um produto e fez um levantamento inicial dos requisitos do produto. Esse time trabalha em um fluxo de valor com os estados: Backlog, Em Análise, Em desenvolvimento, Em testes, Em homologação e Fechado.

O gráfico mostrado abaixo mostra que houve um intenso esforço na descoberta de requisitos nas semanas 2 e 3. E o gráfico também mostra que houve mudanças de escopo ao longo da semana 8 (12 novos itens surgiram). E se o projeto foi baseado em premissa de escopo fechado, isso indica um sinal gerencial amarelo que sinaliza que novos sprints talvez sejam necessários para completar o escopo recem-descoberto.

Observar a vazão do seu sistema de trabalho, de um papel ou de uma área. (throughput)

Podemos observar ainda um aspecto bem importante na saúde de um sistema que é a sua vazão, ou taxa de produção de itens no tempo. Por exemplo, considere o seguinte gráfico.

Explicitei nesse gráfico a vazão dos responsáveis pelo desenvolvimento nas semanas 4, 5, 6 e 7. Observe que quanto maior a inclinação da seta, maior é a vazão. E então podemos observar que o time de desenvolvimento teve um problema mais sério entre a semana 5 e 6. A inclinação da seta aqui está muito baixa nesse região do gráfico. Talvez algum dos desenvolvedores tenha sido alocado em outro projeto ou algum aspecto técnico da arquitetura ainda não explorado do produto tenha surgido e atrasado o trabalho de todos eles.

A análise da vazão ao longo de cada etapa é um instrumento importante para o Scrum Master, Agile Coach e time analisar a saúde e estabilidade do sistema de trabalho.

Observar gargalos

Um outro superpoder desse gráfico é permitir que você analise gargalos. E para isso vamos habilitar as linhas de tendência das etapas inicial e final desse sistema de trabalho (novos requisitos no backlog e requisitos fechados). As linhas de tendência são criadas pela opção Trend Lines no Google Sheets e Excel e são observadas pelas linhas vermelha e preta nesse exemplo.

Se a inclinação das linhas é igual isso indicaria que o sistema está saudável. No caso aqui, estamos vendo que a inclinação da linha vermelha é maior que a inclinação da linha preta. E isso indica que mais itens estão chegando do que itens saem do sistema de trabalho.

Podemos fazer essa análise comparando quaisquer duas etapas (ex. desenvolvimento versus testes ou análise versus testes), para todo o intervalo de tempo ou para um período de análise. As inclinações das retas nos permitem analisar se gargalos estão sendo formados.

E se você observar um gargalo, é o momento de ligar um sinal amarelo e analisar como podemos pensar coletivamente e apoiar área que está apresentando dificuldades.

Estimar quando o seu projeto irá terminar

Por último, mas não menos importante, esse gráfico lhe dá também uma oportunidade de estimar quando o projeto provavelmente irá terminar. Vamos considerar o gráfico mostrado abaixo, onde explicito a quantidade de itens fechados ao longo do tempo e também a quantidade de itens que devem ser realizados ao longo do projeto.

Uma heurística simples que podemos usar aqui é a regra de três sobre os itens fechados até o momento. No nosso exemplo temos 28 itens que foram fechados em 10 semanas. E como temos 117 itens a serem realizados, o tempo total para finalizarmos todos os itens no escopo seria calculado como: 117/28 *10 = 41 semanas.

Essa abordagem, pois mais simplista que pareça, trabalha com o princípio básico que a velocidade passada é um excelente preditor da velocidade futura em um sistema. E isso se torna cada vez mais verdade quando você tem um bom número de observações ao longo do tempo.

Erros Comuns no uso do Fluxo Cumulativo de Valor

Embora esse gráfico seja extremamente poderoso, devemos ter atenção a alguns pontos para não usarmos a ferramenta de forma errada. Alguns erros incluem:

  1. Começar com um fluxo de valor complexo. Recomendo começar com um fluxo simples (A Fazer, Em execução, Finalizado) e incluir mais estados a medida que você e o seu time se acostumarem com o instrumento.
  2. Possui uma definição fraca de Finalizado. Finalizado é algo que está pronto para os seus usuários finais. Se você trabalha com entrega de livros, Finalizado significa que o seu livro está na casa do seu cliente. Se você trabalha com uma cozinha, Finalizado significa que o seu cliente está almoçando o prato que ele pediu há 30 minutos atrás. E se você trabalha com desenvolvimento de software, Finalizado implica que o aquela funcionalidade está nas mãos dos seus usuários no ambiente de produção.
  3. Não possuir Critérios de Aceite para mover um item ao longo do fluxo de valor. É fundamental que o time defina critérios objetivos que permitam avaliar se um item pode transitar de um estado para outro no fluxo de valor. Isso evita falsos positivos e a maquiagem de dados.
  4. Não comunicar o gráfico. Esse gráfico deve ser afixado em base periódica nas paredes do local de trabalho do seu time ou exibido na TV da sua sala. Esconder esse gráfico em alguma planilha obscura na rede não irá ajudar ao seu time, nem você.
  5. Ter uma frequência baixa de atualização. O poder do gráfico cumulativo de valor vem das interpretações que conseguimos obter das medidas ao longo do tempo. (WIP, Lead Time, Taxas e Gargalos). E isso depende de um ciclo de amostragem regular. Recomendo um ciclo mínimo de uma semana. mas se você coletar os números em base ainda menor você terá insumos ainda melhores.
  6. Adotar esse gráfico apenas para um único tipo de informação. Todo sistema complexo deve ser examinado em diferentes níveis. E cada nível lhe dar perspectivas diferentes de análise. Por exemplo, na construção de produtos podemos analisar Épicos, Features ou Histórias. E podemos ter gráficos CFD para cada um desse itens, que permite que você observe a saúde do sistema em níveis distintos e possa extrair interpretações mais robustas.

“Don’t look with your eyes, look with your feet. Don’t think with you head, think with your hands.“ — Taiichi Ohno

A planilha mostrada nesse exemplo está compartilhada aqui para seus estudos sobre o CFD.


Categorias: Agilidade

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