Muitas empresas já aderiram aos métodos ágeis. Cursos foram realizados. Papéis como o SM, PO ou Service Delivery Manager foram criados. Ritos foram estabelecidos. Ambiente foram modernizados com comida a vontade e jogos eletrônicos. E Squads foram formados.

E ainda assim vários gestores não tem percebido geração de valor. A taxa de defeitos continua similar ao de métodos cascata. O moral do times não tem melhorado muito. E a produtividade dos times também não mostrou avanços enormes.

Se você está passando por isso, você não está sozinho. Muitas empresas tem experimentado isso no Brasil e no mundo. Chamo isso do Ornitorrinco Ágil em ação.

O Ornitorrinco Ágil é um processo que lembra um método ágil na aparência e forma, mas não incorporou na sua essência princípios ágeis essenciais. Ele lembra um bicho que tem bico, nada, bota ovos, mas não é uma ave.

Sim, ornitorrincos são bichos muito estranhos. Além de serem mamíferos, eles ainda possuem esporões venenosos nas patas traseiras. E caudas que lembram um castor.

Abrace a complexidade (ou continue fracassando)

Discuti em outro post a importância de usarmos o pensamento sistêmico no desenvolvimento e testes de software e na sua TI. Uma ferramenta potencialmente valiosa é o Modelo Iceberg. Essa ferramenta nos ensina a correlacionar os eventos e padrões com as estruturas e modelos mentais. E ela também nos ensina que mudanças permanentes devem acontecer através de novos modelos mentais que irão gerar novas estruturas.

Gestores, Devs e Testers que ignoram isso estarão sempre amaldiçoados a culpar outras pessoas e continuar fracassando

Uma outra ferramenta poderosa é o pensamento da antifragilidade, popularizada por Nichiolas Taleb, que discuto abaixo no contexto de criação de TIs antifrágeis.

Coisas Frágeis, Robustas e AntiFrágeis

Se você perguntar à maioria das pessoas qual o contrário de frágil, é provável que a resposta seja “robusta” ou “resiliente”. Mas o filósofo Nassim Nicholas Taleb diria que essa não é a resposta correta.

Ele argumenta que se itens frágeis quebram quando expostos ao estresse, algo que é o oposto de frágil não simplesmente não se rompe quando colocado sob pressão. Se o fosse, ele permaneceria o mesmo. Em vez disso, ele deve ficar mais forte!

Não existia uma palavra no Aurélio para descrever tal pessoa, time ou organização. E então Taleb criou uma: antifrágil.

Em seu livro Antifragile: Things That Gain from Disorder, Taleb argumenta que essa poderosa qualidade é essencial para empresas, governos e até mesmo indivíduos que desejam prosperar em um mundo cada vez mais complexo e volátil.

Se você quiser ter sucesso também no seu desenvolvimento ágil, não será mais suficiente se recuperar da adversidade e da volatilidade e ser resiliente apenas. Você tem que se recuperar mais forte e melhor. Você tem que se tornar antifrágil.

Como posso reconhecer coisas frágeis na minha TI e no meu time

  1. Coisas frágeis são tipicamente grandes. Times grandes. Sistemas grandes com milhões de linhas de código. Hierarquias gerenciais pesadas. O tamanho geralmente oferece uma falsa sensação de segurança, mas normalmente não são ágeis o suficiente para sobreviver, e muito menos prosperar em momentos de crises. Há muitas complicações técnicas ou camadas de burocracia para permitir uma ação rápida.
  2. Respostas à variabilidade e estresse vêm do exterior. Se algo é frágil e está exposto ao estresse, não há nada embutido para ajudar a evitar esse estressor. A resposta deve vir de algo externo a ela. E isso significa processos, políticas, procedimentos operacionais e camadas de burocracias chamadas de gerências.O mesmo se aplica a pessoas. Uma pessoa frágil provavelmente precisará de ajuda externa quando a realidade difícil se manifestar. Isso porque lhes falta capital — seja financeiro, social ou emocional — para ajudá-los a enfrentar a diversidade.
  3. Coisas frágeis são excessivamente otimizadas. Empresas, pessoas e organizações frágeis costumam ser espertas demais para seu próprio bem. Nosso mundo moderno é obcecado com eficiência e otimização. As empresas buscam o maior número possível de entregas em prazos curtos e com o menor custo possível. Da mesma forma, os indivíduos são instruídos a serem tão eficientes quanto podem com seu tempo.
    O problema principal de ser excessivamente otimizado e eficiente é que não podemos prever quando problemas e erros aparecerão. E como Taleb observa, quando esses erros aleatórios ou flutuações ocorrem em sistemas excessivamente otimizados, “erros compõem, multiplicam e incham com um efeito que só vai em uma direção — a direção errada”.
    Por exemplo, se você é um gestor e planeja o cronograma do seu time com alocação de 8 horas diárias, sem nenhum espaço para folgas, você está fazendo otimização excessiva e criando fragilidade no seu ambiente. E, sim, você será punido por isso pois o mundo é regido pela aleatoriedade. Aleatoriedade é a regra, não a exceção.Um outro exemplo é corpo de diretores que buscam antecipar todas as estratégias e projetos a serem feitos para um ano completo em um planejamento estratégico de larga escala.
  4. Pessoas, times e TIs frágeis buscam eliminar a variabilidade e a tensão. Como as pessoas e os sistemas frágeis não têm respostas integradas ao estresse e à variabilidade, eles tentam ingenuamente eliminá-lo completamente da equação.Mas tentar eliminar a aleatoriedade e a variabilidade é um jogo de perdedores. Isso simplesmente não é possível. Lembre-se, aleatoriedade e variabilidade são a regra da sua vida, não a exceção.
    A tentativa de eliminar o estresse e a variabilidade não é apenas uma causa perdida, mas acaba fazendo com que uma pessoa ou sistema já frágil seja ainda mais frágilPara ser eficaz em um mundo que roda com complexidade, aleatoriedade e risco, não basta tentar ser resiliente, apenas. Sempre que puder, você deve sempre encontrar oportunidades para realmente crescer a partir de desordem, volatilidade e adversidade. O objetivo deve ser ir além da resiliência para se tornar antifrágil.

Como posso introduzir antifragilidade na minha TI e no meu time

  1. Menos é geralmente mais com antifragilidade. Para se tornar antifrágil, vale a pena ser pequeno. Com o tamanho pequeno, aumenta a agilidade e flexibilidade durante os tempos voláteis e caóticos.
    Dois exemplos na TI:
    . Arquiteturas de microsserviços permitem maior adaptabilidade, evolução tecnológica facilitada e respostas mais rápidas a desafios de negócio. Empresas grandes e outrora muito frágeis por todo o Brasil tem abraçado esse modelo arquitetural.
    . Projetos pequenos tem chance de sucesso muito maior. Não à toa, muitas empresas tem trabalhado com paradigma de projetos com tempo máximo de três meses. Um outro exemplo é o modelo Two Pizza Team, popularizado pelo CEO da Amazon, Jeff Bezos.
  2. As respostas à variabilidade e ao estresse são incorporadas ao antifrágil. Ao contrário das coisas frágeis que exigem uma resposta externa para protegê-las da variabilidade e do estresse, as coisas antifrágeis têm força e proteção incorporadas.
    Mais alguns exemplos:
    . Introduzir pulmões nos seus sprints ajuda a lidar com incidentes em produção e ausências por doenças e problemas familiares que ocorrem com as pessoas no dia a dia.
    . Trocar a produção empurrada de métodos como o Scrum pela produção puxada do Scrumban ou do método Kanban permite maior adaptabilidade a variabilidade do escopo.
    . Incentivar o desenvolvimento de habilidades nas carreira conforme modelo T ou modelo E prepara pessoas e times para trabalhar em áreas que anteriormente eram impossíveis.
    . Evitar contratos otimizados que buscam escopo fechado também contribui para lidar com a variabilidade de escopo.
  3. Coisas antifrágeis têm redundâncias embutidas. Ao contrário das empresas e pessoas frágeis, as coisas antifrágeis não fazem da eficiência o objetivo principal. Para o antifrágil, prosperar na aleatoriedade é a meta, que geralmente requer ser “ineficiente” por meio de redundâncias de camadas.
    Exemplos na TI incluem:
    . Introduzir tolerância a falhas e clusters nos seus sistemas em produção;
    . Possuir múltiplas camadas de testes, manuais e automatizados, funcionais e não-funcionais, com diferentes escalas de tempo.
    . Criar ambientes redundantes para recuperação de desastres.
    As redundâncias não precisam criar coisas grandes que podem tornar os sistemas novamente frágeis. Ao contrário de camadas de burocracia, uma pessoa ou organização antifrágil tem acesso direto ao seus recursos e controle total sobre a decisão de quando e onde usá-la. O empoderamento de times e o uso de modelos mentais como a Gestão 3.0 permitem que redundâncias possam ser usadas.

Os princípios para você desenvolver a sua TI Antifrágil

  1. Injetar intencionalmente o estresse nos seus sistemas, pessoas e times. Práticas como a Engenharia do Caos para sistemas e infraestruturas, sistemas semanais ou diários de feedbacks e aumento da inteligência emocional das pessoas são exemplos desse princípio.
  2. Adicionar redundâncias no seu time e nos seus sistemas. Falhas irão ocorrer. Pessoas podem deixar a sua empresa a qualquer momento. E você deve estar preparado para isso.
  3. Empregar a “estratégia do halter/barra de pesos”. Taleb descreve a “estratégia dos halter” como “uma atitude dupla de proteção em algumas áreas e assumir pequenos riscos em outras, obtendo assim a antifragilidade”. Jogar com segurança reduz a potencial desvantagem da volatilidade e assumir pequenos riscos expõe você aos ganhos potencialmente massivos do mesmo caos.Um exemplo seria uma empresa de produtos criar MVPs com baixo investimento (lado direito do halter) enquanto ela ainda ganha dinheiro com o seu produto vaca leitura (lado esquerdo do halter).
  4. Nunca aceitar conselhos por alguém que não tenha “skin in the game/a pele no jogo”. Vivemos em um mundo em que as ações, as opiniões e os conselhos das pessoas são separadas das consequências.
    Aceitar conselhos, opiniões e até mesmo contratos assimétricos com clientes e fornecedores irá apenas aumentar a sua fragilidade.
  5. Praticar a Via Negativa. Os romanos estóicos e teólogos como Tomaz de Aquino sugeriam imaginar situações ruins para eventos do seu dia (Premeditato Malorum). Aquela demonstração de produto para a diretoria. A recepção ao novo MVP pelo diretor da área comercial. A situação econômica do Brasil no próximo ano. E ao imaginar desfechos ruins, você já imaginaria como seria lidar com isso.Não devemos confundir isso com negatividade ou pessimismo. Ao invés, a Via Negativa é uma técnica de antecipação de riscos e criação de planos de contigenciamentos mesmo nas piores das situações.
  6. Manter as opções em aberto. Sistemas Kanban, por exemplo, adiam a tomada de decisões até o último momento (Defer Commitment). Manter as opções em aberto reduz a sua fragilidade. Possui pessoas com mais habilidades e possuir sistemas redundantes em produção são exemplos poderosos de manter opções em aberto.

“Further, my characterization of a loser is someone who, after making a mistake, doesn’t introspect, doesn’t exploit it, feels embarrassed and defensive rather than enriched with a new piece of information, and tries to explain why he made the mistake rather than moving on. These types often consider themselves the “victims” of some large plot, a bad boss, or bad weather.”
― Nassim Nicholas Taleb, Antifragile: Things That Gain From Disorder

 

 

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